la loca Geografía de Chile...
- 29 de ago. de 2020
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Chile, uma louca geografia – esse é o título de um livro de 1940, escrito por Benjamín Subercaseaux, outorgando a essa desmesura o caráter de virtude. Quem há de negar que merece ser chamado de “uma louca geografia” um país com 4.300 km de extensão, colado à cordilheira dos Andes, em alguns traços aferrado a ela, composto ao norte por um imenso deserto, ao centro por um largo vale, mais além por um sul chuvoso, salpicado de lagos, vulcões e, ainda mais adiante, por um extremo sul que é um dédalo sinuoso de canais que terminam no estreito de Magalhães? Das imagens, representações ou metáforas que os chilenos constroem sobre seu país, esta é uma das poucas que não é pura retórica, que não é fruto da irrefreável tendência idealizadora. (verbete enciclopedia latinoamericana)

Apesar de não percorrermos o atual território chileno de cabo a rabo, isto é, desde a Linha da Concórdia (fronteira norte com o Peru) ao Estreito de Magalhães que separa a América e a Antártica, convergimos na opinião de uma particular e louca geografia, a começar pelo formato de seu território. Um formato ímpar, estreito (variando entre 100km a 200km) e comprido latitudinalmente, ao mesmo tempo.
Em poucas horas de viagem se atravessa o país no sentido leste-oeste, e faz possível contemplar uma diversidade de paisagens, biotas e formas do relevo, que variam da neve da cordilheira dos Andes às planícies litorâneas e praias do pacífico, conforme a altitude em que você se encontra.
Altitude que oscila dos quase 7.000m nos pontos mais altos, por sua vez situados no maciço entre o Chile e Argentina, ou seja o pico do Aconcágua (6.961m) ou o Vulcão Ojos del Salado (6.893m, vulcão mais alto do mundo), marcos de fronteira com a Argentina e Bolívia, e distantes poucos quilômetros da costa, logo do nível do mar (0 m). Já no sentido norte-sul, importante frisar que o relevo da cordilheira tende a perder altitude à medida que se aproxima da Patagônia, no extremo sul.
Outros fatores que tornam a geografía física do Chile ainda mais louca, bela e instigante para qualquer geógrafo, estão relacionados às influências da corrente marítima de Humboldt, que vinda da Antártica se caracteriza pelas águas gélidas e percorre todo o litoral chileno, com reflexos no clima, no tempo, nas atividades agrícolas, na vegetação e fauna nativa, assim como também na economia.
Haja vista o potencial piscoso da costa pacífica, resultante dessa corrente e muito antes de Humboldt a classificar cientificamente a mesma já era conhecida das civilizações originárias, tanto no Chile como no Peru, onde presenciamos mais de perto a atividade da pesca tradicional, embora seja a pesca industrial a que mais se beneficie dessa peculiaridade na dinâmica das correntes marítimas.
Também merece destaque a formação geológica recente (período Terciário) e ativa do território chileno, que resulta em uma constante ocorrência de terremotos, maremotos e vulcões, além das grandes montanhas da cordilheira dos Andes, que fazem a cordilheira da Costa parecer pequena embora ultrapasse os 3000m, cobertas por nuvens passageiras e neves eternas, as quais só tomamos a real dimensão quando estamos perto, miramos e nos sentimos minúsculos defronte a grandiosidade de seus picos, as forças da terra expressas nas dobras, precipícios, depressões e falhas geológicas, e a ação do tempo presente nos vales, altiplanos, cânions e solos rochosos.
Tudo isso, pois o país está situado no famoso Círculo de fogo do Pacífico, região de encontro entre placas, consequentemente instável tectonicamente. No caso do Chile, são as placas de Nazca e Sul-americana colidindo, cujo devido a diferença de densidade e rigidez entre as placas, a primeira segue realizando o movimento de subsidência frente a segunda que, por conseguinte também realiza o movimento de levantamento tectônico, ou seja, todo o território e relevo chileno está inserido numa zona ativa e, seu relevo como as duas cordilheiras que conformam a espinha dorsal do país, todavia ganhando altitude.
O país, estreito e longitudinal, está localizado no extremo sudoeste da América, tão logo, no limite convergente da borda da placa tectônica Sul-americana, e portanto totalmente vulnerável às forças telúricas, que podem acontecer a qualquer momento, pois sabe-se por aqui que as forças da natureza 'não mandam aviso'. E sobretudo quando se trata de fenômenos geológicos oriundos das forças internas do planeta Terra, cujo as tecnologias humanas não conseguem prever, e quando muito conseguem precaver grandes tragédias, logo o que mais conta em países desprovidos das mesmas como se faz válido para todos da América Latina, é o preparo e treinamento, ou não, da população para reagir a essas situações e, principalmente, as forças humana e comunitária para dar a volta por cima, e recomeçar mais forte.
Se já citamos a presença em território do Chile do mais alto vulcão do mundo (Ojos del Salado - 6.893m) e concomitantemente maior montanha do país, vale pontuar que juntamente dele existem cerca de 2.900 vulcões catalogados no país, dentre os quais aproximadamente 10 estão ativos. Quando o tema é terremotos, o tremor de maior magnitude já registrado na história mundial, 9,5 graus na escala Richter, teve como epicentro a cidade de Valdívia localizada na região sul do país em 1960, cujos sismos tão fortes que os impactos atravessaram o oceano Pacífico atingindo países asiáticos como o Japão, sob a forma de Tsunami.
Assim, quase diariamente há registros de sismos ao longo de todo os Andes e grande parte deles no Chile. País em que pela primeira vez presenciamos um, ou melhor, dois. O primeiro, quase imperceptível (4,1º na escala Richter) mas com leves tremores na superfície e objetos, presenciamos quando estávamos em Santiago, mas tivemos notícia do ocorrido somente pelos jornais e pessoas que comentavam no dia seguinte, pois o mesmo ocorreu na madrugada enquanto dormíamos. Quando soubemos, apenas agradecemos por termos acordado mais um dia.
Já o segundo ocorrera um dia antes de passarmos pela cidade de Chanãral, na região norte do Chile, quando estávamos pela Ruta Panamericana a caminho de Calama, onde depois seguiríamos para o povoado de San Pedro de Atacama, já no deserto em terra dos povos originários 'los atacamenhos' que ali desenvolveram sua civilização e por isso dão nome à essa região geográfica. Essa rodovia que atravessa o país de norte a sul, margeia o pacífico e cruza vários povoados situados na costa desértica, paisagem que predomina em toda região norte do país. Esses povoados cuja maior parte deles vivem da pesca artesanal e mineração de empresas multinacionais. Dentre vários que cruzamos pela carretera, estávamos Chañaral onde ficamos parados por 5h, se encontravam bastante destruídos, e a cena que mirávamos eram 'casas-testemunhas' que resistiram aos abalos, seus moradores nas ruas escombros de casas em meio aos vastos areais e muita poeira. O exército e policiais nas ruas fazendo bloqueios e organizando a população e o tráfego.
Realidade distante e cenas que chocam a nós brasileiros, embora situados na mesma placa. Mas uma realidade que os povos andinos convivem sem outras opções e, contanto não diria que estão adaptados mas que aprenderam forçadamente a se relacionar e respeita as forças internas da Terra de modo distinto, ao passo que tentam se prevenir para o imprevisível, admiram, temem e oram à Pachamama.

Ainda sobre a louca geografia do Chile, poderíamos acrescentar os biomas e climas do Chile que associados à sua geomorfologia peculiar variam ao longo do território tanto quanto a latitude (norte-sul) e a altitude (oeste-leste) oscilam nesse país. As paisagens polares da Terra do fogo ou da Patagônia marcam a região austral e sul do país com vegetação de Tundra e floresta temperada. No outro extremo predomina o clima árido do deserto do Atacama (deserto mais alto e seco do mundo) que ocupa quase toda região norte Chile, e na verdade ultrapassa as fronteiras políticas do país já que
se estende por terras da Bolívia, Argentina e Peru. Na região central, onde se situa a capital Santiago e concentra mais de 60% da população do país, predomina o clima mediterrâneo e subtropical nos largos vales, depressões e altiplanos que se formam entre a cordilheira dos Andes e a Cordilheira da Costa, que por sua vez tangencia as águas do Pacífico em Valparaíso, também inserido na região central do país.
Tomando as zonas naturais do Chile sob o conceito de domínios morfoclimáticos, pode-se regionalizar o país em cinco grandes regiões: Norte, Norte Chico, Central, Sul e Austral. Nosso recorrido contemplou apenas as três primeiras regiões desse vasto território continental, ficando a porção sul e insular para viagens futuras.
Contudo, se a geografia física nos ajuda a compreender sua forma esguia, espremida entre as fronteiras naturais da Cordilheira dos Andes ao leste e as águas do oceano Pacífico no oeste, seu relevo acidentado que se desenvolve e ganha altitude de oeste para leste e do sul para o norte geográfico, a dinâmica de circulação das correntes marítimas, das massas de ar advindas do polo sul, e dos ventos anticilonais no trópico, toda essa conjugação de fatores resultam no variado perfil climato-botânico e faunístico que o país apresenta, como poucos no mundo. No entanto, de modo isolado, a geografia física não explica as largas fronteiras longitudinais desse país, de ordem política, logo artificial como todas as fronteiras nacionais. Para tanto, se faz necessário recorrer à história e à geopolítica do Chile, haja vista que até 1880, seu território compreendia metade do que representa nos dias de hoje.
O que hoje já está naturalizado para o povo chileno, todavia constitui uma cicatriz para o povo e Estado boliviano, que segue há mais de um século reivindicando o direito de acesso ao mar, perdido na ocasião da Guerra do Pacífico. A região do Atacama, antes Bolívia hoje Chile, que como o próprio nome indica historicamente fora ocupada pelos povos atacamenhos, constitui uma região desértica, mas muito rica em sal, salitre, guano entre outros minerais, que elevaram essa área aparentemente hostil e inóspita para uma zona de disputa entre os países em 1879. "Quando o Chile se envolve em uma guerra comercial com o Peru e a Bolívia, em torno da ocupação dos territórios salitreiros. Mais além da retórica patriótica que todos os países constroem para justificar as incursões guerreiras, foi um confronto ligado à expansão capitalista do Chile, que tinha a ordem política e o aparelho de Estado necessários para assegurar o domínio inglês do salitre, porém carecia do controle territorial da matéria-prima.
Mas esse será um assunto para outro momento...


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